Bastidores: Cale Neto
Por: Renato Dalzochio Jr
Em 17/10/2014
Entrevistamos o chefe da equipe Escuderia X. Conheça um pouco da história e da filosofia de trabalho de Cale Neto

A sessão “Bastidores”, série do Cross Clube Brasil que apresenta entrevistas com os principais dirigentes do motocross brasileiro (de confederações, federações, moto clubes, equipes, etc) está de volta. Nesta edição conversamos com o paranaense Cale Neto, chefe da Escuderia X, uma das maiores e mais importantes equipes do motocross brasileiro na atualidade. Cale é jovem, tem apenas 30 anos de idade, mas apesar disso é um dirigente que acumula muita experiência (morou três anos nos EUA, onde acompanhou de perto a indústria do motocross). A seguir você conhece um pouco mais da história dele no motocross, como ele enxerga a atual situação do esporte no Brasil e como é sua filosofia de trabalho a frente da Escuderia X. Boa leitura!

 

Comece se apresentando e contando um pouco da sua história. Há quanto tempo você trabalha com o motocross?

Meu nome é Cale Neto, tenho 30 anos e hoje sou chefe de equipe da Escuderia X. Comecei no motocross com 13 anos de idade como piloto amador, andando de 80cc. Cheguei a andar na equipe do Leandro Silva e do irmão dele, ambos são grandes amigos meus. Também andei com o Jean Ramos. Mas tudo isso nas 80cc. Com 16 anos tive que parar. Aos 19 fui morar nos EUA, onde comecei a entender um pouco mais da indústria do motocross.

Me chamou muito a atenção o fator ter uma equipe e como funciona a indústria por trás disso (marketing, etc). Voltei ao Brasil três anos depois, em 2006. Comecei a trabalhar nos bastidores do motocross. Fiz alguns trabalhos com a Pro Tork e com pilotos independentes, até que resolvemos desenvolver o projeto Escuderia X. Começou como Escuderia X Motos, depois passou a ser Escuderia X, por questão de nome, marca, etc.

Hoje procuro agregar tudo que aprendi, para não cometer erros com a minha equipe, procuro passar isso para os meus pilotos. Procuro não fazer aqui o que eu vi dar errado no motocross quando eu estava no exterior. Isso vem dando um resultado muito legal. Hoje como chefe de equipe uma das bases da minha dinâmica de trabalho é manter a amizade e a energia positiva dentro do grupo.

Gosto muito de conversar com todos juntos, expor tanto as coisas boas quanto as ruins e nunca tomar decisões sozinho. Mesmo que eu tenha a realidade de uma decisão, que eu saiba o que eu vou fazer, procuro sempre pedir a opinião dos outros dentro da equipe, para aí sim tomar a decisão.  Acho que isso hoje é muito importante. O esporte “sozinho” é o piloto dentro da pista, mas tem muita gente ao redor dele. Costumo dizer que o motocross é um esporte individual e coletivo.

 

Como está sendo a temporada 2014 para a Escuderia X num aspecto geral?

Muito boa. Este ano contratamos o Jetro Salazar, piloto equatoriano. Já vinhos há algum tempo acompanhando o desempenho dele nos campeonatos nacionais em seu país e também nos campeonatos latino-americanos. Sabíamos do potencial dele. O Jetro está fazendo um grande trabalho em seu ano de estreia no Brasil, mas o mérito não é só dele. O mecânico dele, Juan Torres, é um exímio preparador de motos. Temos também o pai do Jetro, que é um grande técnico de motocross, inclusive ele também tem equipe lá no Equador.  

Tivemos o título do Davis na MX3 em Santa Maria (RS). O Davis é um atleta pronto já há muito tempo, mas que ainda assim sente a necessidade de ter profissionais trabalhando junto, ao redor dele. Ele é extremamente “afoito” a tudo. Então sempre que a gente conversa com ele, mesmo eu, que tenho menos experiência de motocross que ele, o fato de conversar acalma muito.

Cale (de óculos escuro ao lado de Davis Guimarães) comemorando o título brasileiro da MX3 em Santa Maria (RS)

 

E o Davis gosta muito do mecânico dele, que é o “Brutus”. Eles formam uma dupla perfeita (risos). Eu costumo dizer que a relação piloto e mecânico é como um casamento. Achar esses casamentos no motocross é muito difícil. Aqui na Escuderia X estamos conseguindo isso pouco a pouco. Comecei a Escuderia com seis atletas. Tínhamos o Tauan Brenner no início do ano, que não se adaptou ao nosso estilo de treino e teve algumas dificuldades dentro do time.

Ele saiu da equipe, mas continua sendo um grande atleta e um grande amigo nosso. Sempre que ele ta nas corridas a gente conversa, temos um contato muito legal. No lugar dele contratamos o Pepê Bueno, que vem mostrando um grande trabalho também. Então fazendo uma análise de 0 a 10 do nosso desempenho esse ano, a minha nota é 11.

 

Até o ano passado a Escuderia X utilizava motos Kawasaki e este ano está com a Honda. Esta mudança influenciou no bom desempenho dos pilotos?

Todo apoio de fábrica é positivo. A Kawasaki era uma moto muito boa, mas eram motos que a gente comprava. Agora quando recebemos a proposta para representar uma marca como a Honda, vieram duas coisas juntas: ganhamos as motos e uma imensa responsabilidade. Enxerguei como um grande compromisso porque é muito difícil você representar uma marca que tem mais de 50 anos.

É muito difícil hoje você conseguir equalizar isso, mas graças a Deus estamos dando um ótimo resultado. Com certeza ter um apoio de fábrica é algo que soma muito, os pilotos correm mais tranquilos. Temos uma perfeita integração com a equipe oficial Honda/Mobil, muita amizade com todos da equipe, assim como somos amigos do pessoal da Yamaha Geração. Graças a Deus não temos inimigos nos boxes. Temos adversários na pista. Nada além disso.

 

Como é a estrutura e a filosofia de trabalho da Escuderia X? A equipe possui CT próprio, todo mundo mora em Curitiba (PR), os pilotos treinam juntos?

Nosso CT se chama Escuderia X Motocross Academy. Fica na cidade de Quatro Barras, na região metropolitana de Curitiba, 20 km distante da capital. Lá temos duas pistas grandes, uma de motocross e outra de arena cross. É um Centro de Treinamento completo, com oficina e com academia. O Jetro Salazar e seu mecânico, Juan Torres, moram no CT. O Davis, o Mauriti e o Pepê moram em Curitiba.

Ao lado de Juan Torres, mecânico do piloto Jetro Salazar

 

Mas todos trabalham juntos. Quando não é dia de treino com moto é dia de treinamento funcional, ou de treino com bicicleta. Eles são profissionais, trabalham com isso. Nossa filosofia de trabalho é onde um vai, todos vão. Eles treinam juntos, trabalham juntos. No dia da prova sabemos como cada um está se sentindo. Se eu vejo que um piloto não está bem, não preciso pedir aos outros que dêem uma força pra ele, eles fazem isso naturalmente. Essa coletividade do dia-dia faz toda diferença na cabeça do piloto dentro da pista.

 

Sobre as motos X, existem planos para elas entrarem mais forte no motocross ou não?

O projeto das motos XM 250cc era um projeto pioneiro no Brasil. Queríamos ver como seria a aceitação do público. A aceitação foi muito boa. O problema foi a questão fiscal. Os impostos de importação deram um salto muito grande, ficou bem diferente do que estávamos acostumados a trabalhar até então. Junto com a proposta da Honda se tornou praticamente inviável.

Não daria pra produzir motos e ter motos da Honda dentro do boxe. Em comum decisão com a diretoria da empresa optamos por não comercializar mais motos. Não comercializamos mais nenhum modelo de moto hoje, mas temos uma linha com 1.400 produtos de moto peças street. Aros, pneus, câmaras, baterias, bancos, tudo. O que você precisar a X Motos tem. Vamos focar nisso e usar a Escuderia pra provar a força que temos pra buscar os títulos que estamos disputando. A mesma força que a X Motos tem para atender seus clientes e fortalecer o mercado.

 

Como você enxerga, num aspecto geral, a atual situação do motocross brasileiro?

É difícil você estar em um país fazendo um esporte que não nasceu aqui. Essa é a base. Também é muito difícil fazer motocross em um país onde temos um terreno composto 85% por terra e somente 15% de areia. Onde o motocross foi criado é exatamente ao contrário. É 85% de areia e 15% de terra. Então nós trabalhamos teoricamente contra a maré. Muitas vezes falamos “ah, a pista não está bem tratada, a pista é isso ou aquilo, lá fora é tudo lindo e bonito”. Não é. Lá fora claro que as condições são favoráveis porque o esporte foi criado lá.

Partindo deste princípio penso que tem muita coisa no motocross que precisa ser melhorada. Mas também não podemos deixar de olhar muita coisa que melhorou. É nítido que o nível das equipes subiu muito e o nível dos eventos não acompanhou tanto essa evolução. Mas é como quando vem um piloto estrangeiro forte para o Brasil: puxa todo mundo atrás, junto com ele.

Antigamente nós não tínhamos em todas as etapas do Brasileiro de Motocross um Box plano e com toda a estrutura para receber as carretas das equipes. Hoje todas as etapas tem isso. Isso também ajuda para que tenhamos um Box melhor pra todo mundo, as vans, as equipes menores. Analisando num aspecto geral, temos o exemplo da Copa Minas, temos o exemplo do Arena Cross.

Passando instruções ao equatoriano Jetro Salazar

 

Cada evento tem a sua peculiaridade. Vamos falar do Arena Cross por exemplo. Eu não gosto de Arena Cross. Eu gosto do show. É diferente. É um evento muito bem produzido, com um pessoal educadíssimo, muito legal. Agora aquilo pra mim não é motocross. Ele é um show. Aquilo não mede os pilotos pela qualidade ou pela técnica. As pistas são extremamente curtas e pequenas. Conta muito o fator sorte. Mas é um esporte que traz o motocross para os grandes centros do país, para perto do público, por isso é um evento que tem que ser respeitado.

Já a Copa Minas está explodindo, com uma estrutura muito boa. As pessoas que fazem o campeonato amam o motocross, portanto é um evento que pode agregar muito para o esporte no Brasil. O Campeonato Brasileiro de Motocross tem a chancela de ser o Brasileiro. Sempre vai ser o melhor campeonato em termos de nome, tamanho, etc porque é o Campeonato Brasileiro de Motocross. Não acredito na divisão das coisas, pelo contrário, temos é que somar. Quando os dirigentes deixaram um pouco o orgulho e o ego de lado, com certeza o esporte vai ganhar.

 

Cale, muito obrigado pela entrevista e para finalizar, o espaço é seu.

Muito obrigado ao Cross Clube Brasil por este espaço. Acompanhamos direto o site e sabemos da força que ele tem, basta ver a quantidade de pessoas que acompanham o trabalho de vocês. Fomos muito bem recebidos na etapa de Santa Maria (RS) do Brasileiro de Motocross, o povo gaúcho está de parabéns. O Rio Grande do Sul tem potencial de sobra para ser um dos estados mais fortes do motocross brasileiro. Gostaria também de agradecer imensamente todos os meus patrocinadores na Escuderia X: Mundial Prime, Honda, Motul, Serginho Suspensões, enfim, todo mundo que nos ajuda a alcançar este sucesso. Sem vocês da imprensa e dos sites especializados não teríamos como mostrar o nosso trabalho. Obrigado a todos vocês e estaremos sempre a disposição.

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