Bastidores: Firmo Henrique Alves
Por: Renato Dalzochio Jr
Em 13/08/2013
Presidente da Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM) inaugura nova série de entrevistas do CCB. Confira!

Hoje apresentamos mais uma novidade para os apaixonados pelo motocross ou qualquer outra modalidade off-road. Trata-se da série “Bastidores”, nova sessão do Cross Clube Brasil onde serão entrevistados os principais dirigentes do motociclismo nacional. A cada edição teremos um novo entrevistado. E para começar com o pé direito, nada melhor que o presidente da entidade máxima do nosso esporte. Firmo Henrique Alves completa neste mês de agosto dois anos à frente da Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM). Nesta entrevista inaugural, Firmo falou sobre tudo: avaliou estes dois anos de gestão, as dificuldades iniciais superadas, as conquistas da CBM num momento de turbulência, os desafios que ainda estão por vir, isenção de imposto para motos de competição, Campeonato Brasileiro de Motocross, Brasil no Motocross das Nações... enfim, muitos assuntos foram colocados em pauta. Abaixo você confere a entrevista. Boa leitura!

 

Firmo, em primeiro lugar muito obrigado por aceitar conceder esta entrevista para o Cross Clube Brasil. Estamos no mês de agosto e a sua gestão na CBM completou dois anos. Faça uma avaliação do seu trabalho realizado até agora à frente da entidade, um balanço entre os aspectos positivos e negativos num aspecto geral. Quais foram às principais conquistas da sua gestão até aqui?

A principal eu acredito que foi a retomada da credibilidade da entidade junto ao próprio meio do motociclismo. A CBM passou por uma gestão fraudulenta, que abalou sua credibilidade no meio esportivo e comercial. Com isso, a realização das modalidades caiu de qualidade e junto o caixa financeiro da CBM sofreu um forte “baque”. É claro que tivemos muitas e importantes conquistas que ficarão como um legado, cito algumas: hoje a CBM trabalha com transparência financeira e administrativa. “Abrimos” o caixa da CBM aos nossos associados que são as federações. Isso nunca tinha ocorrido anteriormente, nunca sabíamos (pelo menos eu como presidente da FMEMS) quanto eram os valores dos contratos e quais eram as verdadeiras receitas e despesas da entidade.

Trouxemos para o Brasil o retorno dos Seminários Técnicos Internacionais. Em menos de dois anos, já realizamos quatro: Motocross, Técnico, Rally e Meio Ambiente. É muito importante capacitarmos tecnicamente às pessoas que trabalham na realização de corridas, pois somente teremos bons alunos se tivermos bons professores. Estamos em constante contato com a FIM (Federação Internacional de Motociclismo) e facilitamos diretamente o retorno de vários mundiais ao Brasil.

Conquistamos novamente os principais patrocinadores do Brasil e o seu retorno. Sanamos todas as dívidas que a entidade tinha e estamos bem perto de “limpar” o nome da CBM no Governo Federal, acredito que isso acontecerá até setembro. Com isso a CBM poderá ser novamente beneficiada com ajuda financeira do Governo Federal e isso refletirá diretamente na realização das provas e no apoio a participação de pilotos em provas no exterior. Elevaremos com isso a qualidade das provas e poderemos ajudar mais os pilotos e as equipes.  

 

Quais as principais dificuldades e desafios que a entidade superou até o momento?

As dificuldades ainda são imensas, estou tendo que ter bastante persistência para ultrapassá-las. Foram inúmeras as ações trabalhistas movidas pelos funcionários da empresa particular do ex-presidente deposto por irregularidades na sua prestação de contas. De má fé, eles se reuniram e acionaram a CBM judicialmente, alegando que eram funcionários da entidade e não da empresa no qual eram verdadeiros funcionários. Várias ações civis movidas por autores contra a CBM por erros administrativos da gestão anterior que causaram e ainda estão causando graves consequências ao cofre da nossa entidade.

Assumi a entidade sem equipe, com a sede na garagem da casa da secretária (única funcionária da época). Sem patrimônio, a não ser uma dívida bancária no cheque especial no valor aproximado de R$ 300.000,00. Sem nenhum tipo de equipamento administrativo ou de informática. Veículos velhos, sucateados, que eram do próprio presidente da entidade, vendidos para a entidade pelo preço quase de novos.

 

E quais ainda precisam ser superadas?

Preciso completar a Equipe Técnica e Administrativa da CBM, isso ainda levará um certo tempo. Tenho que capacitar pessoas e isso não será da noite para o dia.

A retomada da credibilidade é algo crescente e ainda falta muito que se conquistar. Somente um trabalho sério, superando dificuldades e com o passar dos anos é que mostraremos ao meio que a CBM hoje é outra.

“Limpar” o nome da CBM será fundamental para o futuro das modalidades e da própria entidade.

 

Recentemente a CBM firmou uma parceria com a ABPMX (Associação Brasileira de Pilotos de Motociclismo Esportivo), para auxiliar na realização das etapas do Brasileiro de Motocross. Fale mais a respeito desta parceria e os benefícios que ela traz ao esporte.

Isso nunca ocorreu antes, a abertura que proporcionamos aos pilotos está sendo muito benéfica para os nossos atletas e para a entidade também, estamos mostrando a eles as nossas dificuldades e porque não conseguimos solucionar certas reivindicações. As pistas estão sendo cada vez mais desenhadas visando à segurança dos pilotos e isso diminuirá o número de acidentes automaticamente.

 

Recentemente você criou um canal de comunicação direta para falar do trabalho da CBM a todos os interessados pelo motociclismo. Como está repercutindo esta nova ferramenta de comunicação entre presidente e pilotos, federações, promotores, equipes, etc?

Olha as pessoas são imediatistas, acham que tudo pode ser resolvido de forma rápida, é muito fácil criticar, muito fácil em casa, atrás de um computador, uma pessoa dizer o que pensa sem ao menos saber a verdade dos fatos. A verdade é que sou um ser humano igual aos outros, sem o poder mágico da varinha de condão (infelizmente). Quando assumi a CBM, todos acharam que de uma hora para outra tudo ia se resolver, voltar a ser o que era antes e até ser melhor, mas se esquecem de como assumi a entidade (já mencionei acima). Não sou mágico, sou somente uma pessoa que tem boa vontade e que deixou para trás a família, vida comercial, estudos (estava cursando uma nova faculdade e tive que parar) para me dedicar em tempo integral a CBM. Se tem objetivos que ainda não consegui, não é por vontade própria, é que ainda falta muito a se conquistar, coisas que não dependem da minha pessoa, da minha vontade. Somente com muito trabalho e dedicação é que conseguiremos mudar o quadro em que a CBM hoje se encontra. Tenho consciência de que muito ainda há o que se conquistar e é para isso que estou trabalhando com muito esforço e persistência. Tenho certeza de que quando deixar a presidência da CBM, deixarei ela bem melhor do que quando assumi.  

 

Atualmente o Campeonato Brasileiro de Motocross está sendo patrocinado por grandes empresas. O que isso representa para o esporte?

Que a credibilidade do campeonato voltou. O que estamos trabalhando agora é para demonstrar a essas empresas que o nosso trabalho é um trabalho sério, e acredito que isso está sendo visto, para que os investimentos possam aumentar. Com isso o campeonato poderá ser maior, mais visto e com uma maior participação de pilotos, público presente e audiência.

 

As duas primeiras etapas do Brasileiro de Motocross tiveram transmissão ao vivo da segunda bateria da categoria MX1. Como você avalia a divulgação que o esporte está tendo na mídia como um todo atualmente?

Consegui pela primeira vez na história do motociclismo brasileiro que uma etapa do Campeonato Brasileiro de Motocross fosse realizada com transmissão ao vivo em um canal de televisão. Isso é fruto de grande esforço meu. Acredito que ir para a TV é um grande passo para esse esporte, mostrei que é possível fazer. Preciso do apoio das empresas ligadas ao ramo para que isso se torne uma realidade definitiva, pois transmissão ao vivo em TV é cara.

 

A CBM fez um convite formal para cinco pilotos, com o objetivo de formar uma equipe para representar o Brasil no Motocross das Nações. Como está o andamento deste projeto?

Fico feliz que tenha incluído essa pergunta, pois esse é um assunto bastante delicado, complexo e vejo uma série de pessoas que não tem a mínima noção do que é isso criticando publicamente a CBM referente a esse assunto, falando inclusive bastante bobagem. Agradeço a oportunidade e com a minha resposta, espero que as pessoas distantes entendam de uma vez por todas sobre isso. As pessoas enxergam a CBM como uma prefeitura, que recebe impostos, ajuda do Governo Federal e também de várias fontes financeiras. Infelizmente não é assim que funciona, a CBM não tem ajuda financeira de ninguém. O dinheiro que recebemos é apenas das corridas que realizamos e que se não fosse com muito sacrifício e economia, mal conseguiríamos realizar os campeonatos. Portanto, a CBM não tem recurso para levar pilotos para fora do Brasil, isso é fato, gostaria muito que fosse diferente, mas essa é a verdade.

Quando ainda não era presidente da CBM, via todos os anos a CBM “levar” pilotos que não eram os principais do Brasil para o Nações. Por quê? A CBM viabilizava uma empresa do meio e essa empresa custeava as despesas desses três pilotos. Se o piloto fosse de uma empresa concorrente, o seu patrocinador não deixava ele ir e sem nenhuma exceção ficaram de fora se não um, até dois dos melhores pilotos que tivemos em todos os anos anteriores.

Vale salientar que não temos apoio do Governo Federal para levar pilotos, pelo fato do nosso nome estar “sujo”. Isso acontece com o Vôlei, Basquete e todos os outros que recebem apoio do Governo. Sendo assim, só nos resta a iniciativa privada. Adotei uma fórmula que já existe lá fora, que é a do piloto ir com seu próprio patrocínio e não com um patrocinador obrigado pela CBM. Por quê? Com patrocínio imposto, o piloto acabava não indo, então o melhor caminho é o que acontece nos EUA, França, etc. O agravante é que a nossa indústria passa por uma forte crise e isso acabou atrapalhando o apoio extra que teria que ser desembolsado por esses prováveis patrocinadores.

Lembro que de todas as três Américas, no ano passado foram somente três países: EUA, Venezuela e Brasil. Países importantes ficaram de fora, como Argentina, Canadá, México, Peru, Chile e outros. Por quê? Falta de patrocínio. O mais fácil é falar: a CBM deveria levar eles. Levar como? Com que dinheiro? Sendo assim, acredito que a melhor fórmula no momento é essa. Espero, que depois que eu “limpar” o nome da CBM, possamos solicitar e sermos atendidos pelo Governo Federal.

 

O Brasil foi selecionado para sediar o Motocross das Nações em 2017. Estamos preparados para receber este evento? E os nossos pilotos estarão em que nível para defender o nosso país em casa até lá?

O Brasil já provou que tem capacidade para realizar uma etapa do Mundial de Motocross de forma exemplar. O Nações é praticamente a mesma coisa que realizar uma etapa do mundial de Motocross, sendo assim, creio que esse evento, que nesse caso será realizado pelo Romagnolli Promoções e a parte técnica pela CBM, será um grande sucesso.

Quanto ao nível técnico dos nossos pilotos, entendo que temos um potencial enorme e que podemos melhorar, mas isso é um trabalho extensor, de longo prazo, amplo e que requer a quebra de uma cultura. Cito como exemplo o nosso campeonato. Como podemos ter na mesma pista e na mesma competição pilotos com motos de 65cc e pilotos da categoria MX1 com 450cc? Está errado. A pista não tem um nível técnico apropriado para a MX1. Por outro lado, o nível é elevado demais para a 65cc. E por ai vai…

 

O piloto Douglas Parise reclamou de descaso da CBM na etapa de Sorriso do Brasileiro de Motocross, e em Lauro de Freitas muitos pilotos fizeram um protesto cobrando melhorias e até ameaçando boicotar a etapa. Como você avalia estas situações?

O que mais prezamos é pela segurança dos pilotos. Isso para nós é o ponto principal de uma corrida e nunca os pilotos tiveram uma abertura com a CBM como estão tendo agora, isso é um fato e não se discute. Sempre estamos dispostos a ouvir os pilotos, principalmente em relação à segurança nas pistas.

O piloto Douglas Parise sofreu uma queda em Sorriso, foi atendido imediatamente dentro da pista pelo Doutor Gaspar, Médico Ortopedista com Doutorado em recuperação de acidentados, proprietário de uma clínica que é referência nacional nesse segmento. Doutor Gaspar o acompanhou desde a pista até o hospital dentro da ambulância, que imediatamente o atendeu. Procurei o Dr. Gaspar para saber o que ocorreu com o Douglas, o mesmo me informou que o piloto estava bem, fora de perigo, mas como tinha sofrido uma lesão na região pélvica e corria o risco de ter uma hemorragia, o hospital o manteria sob observação clínica por 24 horas e assim o fez. Não tenho o poder de mandar um médico ou um hospital liberar um piloto que está sob observação. E se obrigasse o Douglas a ser liberado e ele sofresse uma hemorragia e seu caso viesse a se complicar, o que iriam dizer? Que fui um louco? Seria processado pela família por ter cometido tal ato? Simplesmente acatei a decisão do médico e se fosse com um filho meu, faria a mesma coisa, não o retiraria do hospital.

O presidente da Federação Gaúcha de Motociclismo, conhecido por todos pelo apelido de Jabuti, esteve com ele no hospital perguntando se necessitava de algo. Segundo relato do próprio Jabuti, em momento nenhum o Douglas disse nada sobre abandono. E mais, em momento nenhum eu ou qualquer membro da CBM recebemos alguma solicitação nesse sentido, nem dele e nem de qualquer membro de sua equipe ou amigo, e caso tivesse recebido qualquer tipo de solicitação, de pronto, eu pessoalmente o teria atendido qualquer que fosse a situação que estivesse ao meu alcance e isso nunca aconteceu. Jamais abandonaria qualquer piloto em qualquer que fosse o lugar, quem me conhece sabe disso.

Quanto às melhorias, o que os pilotos querem é o que queremos também. Melhores condições é o que todos queremos também, para isso é que estamos lutando e é esse o nosso objetivo principal. Boicotar de nada adianta, isso é pressão em exigir algo que não pertence à CBM. Algumas reivindicações eram válidas, mas infelizmente, como em todos os protestos que estão acontecendo no Brasil, haviam alguns oportunistas que estavam ali só porque sabiam que não tinham condições de ganhar a prova.

Melhores condições é algo que todos juntos temos que conquistar. Boicote significa afastar os patrocinadores do campeonato e isso só piora o que já não é do jeito que gostaríamos que fosse. Se queremos o bem do esporte, temos é que nos unir e não nos separar.

Somente com muito esforço e união é que conquistaremos a credibilidade das empresas e consequentemente um aumento do patrocínio que beneficiará as condições do campeonato e dos pilotos. Caso contrário, esse esporte está fadado ao fracasso. O sucesso depende de nós dirigentes e dos pilotos, eu acredito nos pilotos e acredito que iremos superar essa fase e creio que em breve dias melhores virão. O pior já passou.

 

Como estão as negociações com a Receita Federal para regulamentar a lei de isenção de imposto para motocicletas de competição?

Conseguimos o mais difícil e agora só falta boa vontade da Receita Federal. Mas isso não acontece. Na verdade não sei o porquê que a Receita não regulamente essa lei logo, se é falta de boa vontade ou se é preguiça. Cansei de “acobertar” os diretores da receita, de agora em diante falarei a verdade e convoco a todos os pilotos. Aí sim valeria um protesto. Um boicote na frente do congresso e o que mais for necessário, porque o poder de mudar nesse caso está com os diretores da receita e  eles não o fazem.

 

Saindo um pouco do assunto motocross, como você avalia as demais modalidades do motociclismo off-road e seus respectivos campeonatos brasileiros? Como estão estas modalidades num aspecto geral?

Apesar da crise no mercado da motocicleta em todo o mundo, as outras modalidades estão ano a ano evoluindo. Creio que até o final do ano coloco a CBM nos trilhos e quero a partir do ano que vem me dedicar mais as outras modalidades também. Elas e os pilotos merecem mais apoio e mais atenção. A minha parte eu o farei.

 

Firmo, para finalizar o espaço é seu.

Quero aproveitar a abertura para agradecer a confiança das empresas e de alguns pilotos neste novo trabalho da CBM. Tenho a certeza de que se todos do meio pararem para analisar essa fase de transformação do motociclismo nos últimos dois anos, também darão seu voto de confiança. Às vezes é preciso deixar o emocional um pouco de lado e olhar com a razão.

Todos nós estamos ansiosos com os novos e áureos tempos que virão do motociclismo brasileiro. Tenho certeza que eles virão. Mas isso não se faz da noite para o dia. Na verdade leva certo tempo. Credibilidade não é algo que se adquire tão facilmente e isso nós já reconquistamos.

Eu como gestor já tenho novas perspectivas para o ano que vem. É assim neste meio. A gente trabalha nos bastidores por um futuro melhor. Já temos sinais de que em 2014 conseguiremos fazer um Brasileiro de Motocross quase do jeito que esperamos. A cada ano, vamos melhorando. Agora é trabalhar com determinação e uma dose de paciência, pois as dificuldades ainda farão parte do nosso caminho e do caminho dos pilotos. Mas tenho a certeza que nosso esporte vai evoluir muito.

Obrigado e a CBM está à disposição para quem quiser contribuir.

Firmo Henrique Alves

Presidente da CBM

 

Tags: Bastidores
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